1 Formação Lúdica (2)

O que começou por ser uma série planeada de textos sobre os jogos que mais me influenciaram já se arrastou por tanto tempo que quase já não faz sentido continuar a escrever sobre eles, ou sobre mim. Mas viagens pela memória são sempre fascinantes, nem que seja apenas para perceber a maneira como viemos a olhar para os videojogos e para nós próprios. Portanto aqui fica a parte 2 do Formação Lúdica. Ainda podem ler a parte 1 aqui.


“Cuidado com o que desejas – podes acabar por ter isso mesmo”

Isto sempre me pareceu uma máxima estranha até eu começar a jogar videojogos mais a sério. Sério, não porque evitava sorrir quando pisava Goombas ou porque me impedia de rir ao ouvir Ultrakills serem anunciados, mas a jogá-los com determinação. A dada altura, entretenimento e investimento pessoal aproximaram-se perigosamente um do outro e eu passava dias a caçar entusiasmo em formato digital. Estrelas secretas, caminhos secretos, portas secretas, técnicas secretas, lugares secretos, prazeres secretos. Todos eles seriam meus.

Comecei a compreender que o entusiasmo era rentável. Algums estúdios percebem isto – têm reinventado as teias de competição, sucesso e pressão de pares, desde os ecrãs de pontuação máxima nas velhas máquinas de arcada até aos achievements e aos leaderboards online. Mas se excluírmos o direito à bazófia ocasional quando sobrevivia – ou marcava pontos – durante mais tempo com quem quer que jogasse cooperativamente comigo em jogos como Contra, nunca foi algo que persegui. Uma parte de mim queria saber porque os outros apreciavam tanto a competição mas divertir-me era uma preocupação muito mais premente do que impressionar ou humilhar adversários.

Até ao dia em que o meu pai pegou num controlador e disse “vamos lá ganhar isto”.

Virtua Racing é provavelmente um dos melhores jogos de corrida de arcada alguma vez criado. Era uma fatia de prazer lúdico que a maior parte dos estúdios contemporâneos parece ter abandonado, infelizmente – um jogo sobre a fantasia de conduzir, não a realidade da condução. Simulação versus arcada é um argumento velho e cansado mas aqui estava um caso de estudo para o anterior. Tudo o que precisávamos era gastar alguns trocos nas arcadas perto de nós e ser sugado para um jogo de corridas rápido e furioso. Os gráficos eram impressionantes na altura mas o que mais sobressaía para mim eram os céus de cor azul Sega. Alimentavam uma sensação de tranquilidade enquanto lá embaixo, o alcatrão exigia sangue e suor. Ou perto disso.

Por esta altura o meu pai já não se dedicava aos jogos mas a compra do malfadado acessório da Sega, o 32X, e uma cópia de Virtua Racing Deluxe acenderam a imaginação dele. Ele não queria saber do sangue e motoserras de Doom ou espancar tipos orientais feitos de blocos em Virtua Fighter. Para ele, este era o alfa e o ómega da sua relação com os jogos. O entusiasmo, a intensidade, a velocidade, a competição – mesmo quando era só eu em vez dos condutores controlados pelo CPU. “Não me consegues vencer, pá”. Bons velhos valores familiares ardiam no inferno.

Para mim, o jogo foi uma série de coisas. Era um estilo de vida ideal, primariamente, a melhor escolha que eu podia fazer entre deixar para trás os carros de corrida eléctricos (já era velho demais para eles) e ir até às arcadas e perder tempo e dinheiro todo o santo dia (ainda era novo e pobre demais para isso). Havia uma máquina de arcada de Virtua Racing num centro comercial perto do sítio onde morava mas os meus pais tinham que ter atenção aos seguranças. E ainda por cima levar bolsos cheios de trocos. A versão de 32X era o melhor a que eu podia almejar, e o melhor a que o meu pai teve direito – o único jogo que ele me pedia para jogar. E ele vencia-me vezes sem conta.

Isto disparou uma reacção em cadeia dentro de mim, a jogar o jogo enquanto ele estava fora para melhorar, para conseguir a pontuação mais alta, para aprender novas técnicas com os três carros oferecidos – o Fórmula Um original e mais duas adições, o Stock Car “seguro” e o Prototype “selvagem”. Pensando bem, a escolha da Sega em não nos deixar gravar as nossas melhores pontuações foi uma ideia terrível. Na altura achei reconfortante que apesar de o meu pai ser um sacana de primeira quando jogava comigo, nunca exisitiram provas físicas disso. Eu não te ganho mas tu não podes provar que me ganhaste. De sacana para sacana, velhote. E de repente tinha o ‘bichinho’ dentro de mim – à procura de competição em vez de divertimento.

Mesmo com todas as suas virtudes é certamente o tipo de jogo que parece ultrapassado hoje em dia, graças a uma indústria que ainda estava a aprender como usar gráficos poligonais e tridimensionais nas consolas. É claro, isso não me interessava. Virtua Racing Deluxe é um dos poucos jogos que me consegue levar até à “zona”, um termo que uso para descrever o efeito que jogos como Gridrunner, Wipeout, Rez e Audiosurf têm em mim – uma sensação de jogabilidade aguçada, afinada para *não* ser mais do que jogo e jogar, visuais e som subtilmente a transformarem-me num só. Focamos e tudo torna-se uma viagem.

Também beneficiava tremendamente de ser pioneiro de perspectivas múltiplas num jogo de corridas, outra coisa que entrou num colapso de tiques nervosos ao longo do género. Deluxe usava quatro câmaras – no pára-choques dianteiro, no visor do condutor, por detrás do carro (terceira pessoa) e uma visão bem afastada, também conhecida como visão de helicóptero. Um jogo de corridas de arcada que apelasse a todos os fãs do género era difícil mas lá estava – todas as perspectivas a tentar sintonizar a frequência do nosso radar de gosto pessoal. Os tradicionalistas apostavam na terceira pessoa, para poderem ver melhor o veículo. As visões a partir do pára-choques dianteiro ou do visor do condutor lutavam um bocado com os jogadores à procura de algum realismo, mas era suficiente. A visão de helicóptero, no entanto, era brilhante: a meio caminho entre a perspectiva enquanto função (podíamos ver grandes pedaços da pista de modo a evitar a probabilidade de nos espetarmos) e entretenimento (como as filmagens aéreas difundidas durante campeonatos semelhantes).

Anos mais tarde estou a jogar Outrun 2006: Coast to Coast e é o mais próximo possível a um sucessor espiritual sem na verdade ser um. CtC faz algo melhor que Virtua Racing, não através de gráficos, som ou selecção de pistas ou veículos, mas porque os seus criadores parecem ter criado algo a partir do mesmo nível de entusiasmo. Esqueçam as acrobacias de TrackMania. Esqueçam o rebobinar de Race Driver: GRID. Este jogo tem a vossa namorada virtual no lugar do passageiro a aplaudir quando ultrapassam outros carros, quando ultrapassam o limite da velocidade e quando conduzem de modo imprudente.

“Até onde me vais levar?” pergunta ela. Vamos longe, boneca. Recosta-te e aprecia a viagem.

É muito mais honesto na maneira como nos convence – agradar à nossa namorada é algo que entendemos bem melhor, não é? – mas é também um nível superior para os elementos fantasiosos das corridas de arcada. Mas é sempre para o Deluxe que regresso. No Natal passado artilhei o portátilo do meu pai com uma emuladora de Sega Megadrive, numa tentativa de fazer a magia brilhar de novo. Mas a viagem à nostalgia durou apenas alguns momentos. É como se ele quisesse fazer aquela viagem atrás no tempo, a dominar todos os carros e a vencer todas as pistas, o que me deixava feliz ao ver aquele homem rezingão a divertir-se com o seu filho… Mas ele não conseguiu. Perdeu a garra – reflexos lentos, desorientação com e sem o controlador, o do costume. 30 minutos depois, quase todos eles a sorrir, pousou o controlador e agradeceu-me pelas memórias. Depois voltou ao mundo dele, aquele onde o Peter Pan morreu.

Agora que o conseguia vencer, ele já não tinha interesse nisso.

Outros jogos e jogadores teriam que ser suficientes, acho eu.

One Response to Formação Lúdica (2)

  1. Eduardo says:

    Muito bom esse post, Parabéns !