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Comments Off Batman: Arkham Asylum – Crítica

No Cavaleiro Mais Negro

Estamos em arredores de 1994, penso eu, e um amigo meu decide que preciso de ler Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth. Durante muito tempo, comics norte-americanos eram filtrados pelo Brasil antes de aterrarem em Portugal e o resultado, apesar de carinhosamente apelidado de “gibi de bolso”, era uma redução do tamanho original para 50% o que causava problemas óbvios. Mas esta cópia de Arkham Asylum nas minhas mãos mantinha as proporções intactas, cada página completa e sem diálogos cortados. Mais importante, a história e os temas apresentavam um Batman para além das minhas expectativas. Claro que aos catorze anos tudo nos parece espectacular mas Arkham Asylum era, e ainda é, muito bom. A culpa foi de Grant Morrison e Dave McKean, nomes que tenho seguido de perto sempre que posso – McKean em particular, cujo trabalho visual nos comics é dos poucos a assentar no binómio representação/deconstrução de modo natural.

Quando se trata de comics, poucas são as minhas personagens de eleição. Barry Allen, o segundo Flash, é uma – o seu sacrifício durante a saga Crisis on Infinite Earths, e a revisão da origem da personagem por Robert Fleming e Carmine Infantino em Secret Origins Annual #2, contribuíram para isso. Há várias outras mas Batman está no topo da lista. De todas as razões possíveis escolho uma: porque é uma personagem humana, em todos os sentidos. Não só não pertence à galeria de personagens com poderes deíficos (e confesso que me irrita profundamente a vinculação gradual da personagem ao termo “super-herói” por essa mesma razão) mas é também uma das que mais viu a sua humanidade explorada. A predisposição psicológica para a luta constante contra o crime, a necessidade dessa mesma luta, o código moral, o próprio fato enquanto elemento utilitário (que permite ocultar a identidade e enveredar por um jogo de sombras) e sobrenatural (o morcego enquanto símbolo da morte, do caçador nocturno, enquanto “alma” da personagem) têm uma mitologia muito forte.

Quando chegou a notícia de que um estúdio relativamente desconhecido ia tentar dar nova vida ao Cavaleiro das Trevas, não sabia bem o que pensar. Tendo acompanhado quase todos os videojogos criados em torno da personagem, havia aqui forte possibilidade de isto correr espectacularmente mal (penso que o termo técnico é EPIC FAIL). Não porque o estúdio só tinha um jogo sobre a sua asa criativa mas porque Batman é um alvo perfeito para produções à procura de financiamento. É algo normal em jogos do género – Marvel: Ultimate Alliance é um excelente exemplo disto pela negativa. Não há uma sensaçao de presença ou uma diversidade maior no contexto restricto – quer em termos narrativos ou mecânicos, a diferença entre um Wolverine e um Thor é virtualmente nula, ao ponto de que poderíamos estar a jogar uma versão melhorada de um Gauntlet. O problema é que quando se pega numa licença deste calibre, muitos são os estúdios que afunilam personagens para dentro de um conceito previamente estabelecido em vez de construírem o jogo em torno da personagem.

Mas Batman: Arkham Asylum é lançado, a Rocksteady faz um bom trabalho e muitos foram os que se renderam ao charme do jogo. Sem surpresas, também me rendi. Mas apesar de tudo o que tem sido dito sobre o mesmo, não posso concordar que seja um jogo sobre Batman. Ou sequer sobre Joker.

É sobre o asilo.

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