8 Um skowng e o seu thanatos

Avatar, antes de ser um filme de ficção científica, é um documentário. Um sobre Hollywood, aquela que já não convence como outrora, aquela que procura um meio de sobreviver à crise e se tenta afirmar como uma máquina ainda capaz de produzir aquilo que, para pior e para melhor, não consegue – não pode – deixar de fazer. E incapazes de se entregarem ao risco de fazer diferente, apostam em mostrar diferente. Perdeu-se a oportunidade da mera exumação e ficámos com o voodoo: o regresso da tecnologia do 3D enquanto salva-vidas de uma indústria que foi perdendo a guerra contra o DVD e o download, e que quer convencer a audiência a trocar o televisor e o monitor por um aborto de criatividade que de algum modo representa o “futuro”.

Mas para repescar uma meme das internetes, os óculos não fazem nada.

O cinema – de Hollywood, entenda-se – há muito que deixou de confiar no seu próprio imaginário ou, digamos, há muito que deixou de confiar na força primal do seu próprio imaginário. O “cinema do futuro” é um engodo: o cinema sempre foi “do futuro” ou não o tivesse mostrado ao longo dos anos enquanto maravilha tecnológica (dos irmãos Lumière aos irmãos Wachowski), crítica política (como o documentário) e revolução social (as classes operárias que, tanto na audiência como no trabalho de bastidores, gradualmente conquistaram um lugar ao lado dos estratos sociais mais altos). E claro, tudo isso juxtaposto com uma expressão artística que preencheu as nossas vidas, tornando-nos cúmplices de personagens, aventuras e viagens ímpares. Esse imaginário sempre foi o seu ponto forte e há-de continuar a ser “do futuro”, do nosso futuro.

Talvez por isso a estreia desta tecnologia tenha sido um fracasso tão grande. “O Monstro da Lagoa Negra”, de Jack Arnold, foi lançado originalmente em 1951, cujo uso desnecessário de óculos 3D foi prolongado artificialmente nas décadas posteriores com três relançamentos. A estreia do filme em televisão portuguesa, do que tenho memória mesmo em tenra idade, não convenceu ninguém e lembro-me da curiosidade de menino agarrado aos óculos desaparecer num instante. O cinema sempre se baseou na suspensão da descrença, aquele contrato secreto entre criador e audiência de que não interessa distinguir entre o real e o fictício, procurar o verdadeiro e o falso – apenas interessa a distância certa entre ambas. E em todas as três vezes, a novidade não passou mesmo disso: um truque, um coelho invisível para fora da cartola, algo que – em vez de aproximar – só aumentava a distância entre o que vemos e como vemos.

E a actual indústria do cinema, a par de fenómenos como o YouTube e o NetFlix (e o bom do velho download ilegal), volta a apostar no erro. Avatar não consegue muito mais do que acompanhar esse erro mas tenta fazê-lo de cabeça erguida, confiante na escolha mas inseguro no passo.

A saber: sim, há um certo choque visual. Sim, há claramente momentos onde o espanto aparece sem aviso mas também outros onde grandes planos trocam claridade por borrões que em nada melhoram a experiência e, desprovidos de clarividência, ficamos sem saber quando ou onde remover os óculos para conseguir ver o filme sem estas interferências. Mas o maior problema que o 3D trouxe à projecção de Avatar é que trinta, quarenta, cinquenta anos depois da tecnologia estrear não há nenhum sobressalto, nenhuma revolução e nenhuma melhoria que justifique o alarido. Seria desonesto afirmar que se trata de puro engano visual: se é verdade que há sequências que não passam de meros artifícios, estruturadas a pensar unicamente em como apaparicar a “audiência do futuro”, outras há em que é difícil não sermos levados pela magnificiência dos cenários ou da percepção de que há ali algo especial a funcionar. Por momentos, o engano funciona, e é fácil confundir a indelével magia do cinema com a magia do 3D.

Mas é uma magia que, ao contrário do cinema em si, cedo passa para a categoria de truque de feira. O esplendor não passa tanto pela sensação de que o espectador está imergido de alguma maneira no espectáculo mas pela sensação de que, infelizmente, todo o aparato tecnológico em vigor é um grande nada seguido de um nada. Espaço, volume e profundidade sempre pertenceram ao domínio visual e Cameron, para quem já anda nisto há anos, prefere sacrificar a magia da tela em favor do truque de principiante e não posso dizer que, em toda a experiência, tivesse acontecido algo que me fizesse pensar no “futuro”, no “cinema do futuro” ou – como já acontece com videojogos – que o uso do 3D seja superior ao 2D. É uma ferramenta como qualquer outra: só é boa quando quem a usa sabe o que faz.

E qualquer que seja a proeza técnica de Cameron ela não disfarça a limitação temática que sempre pontuou os seus filmes. Em Avatar, a mensagem clara mas corriqueira do pró-ambientalismo não quebra essa regra e é aqui pintada nas cores mais primárias possíveis. A tal proeza é uma formalidade amputada por uma tecnologia que apenas consegue edificar uma fantasia sem fundação, bonita mas banal. Não apenas pela majestosidade de Pandora se traduzir numa tentativa de parecer viva em vez de viver, não apenas pela naturalidade dos Na’vi se resumir a uma captura de movimentos que esquece o naturalismo do ser, não apenas pela sua expressão ser sujeita a um quase completo distanciamento emocional: tudo em Avatar está simultaneamente embevecido e condenado por um fascínio visual que parece não entender o cinema.

Ou de outro modo: Avatar é primeiro um brinquedo e depois um filme. Nenhum dos dois é particularmente bom.

A intenção é apelar à universalidade, aqui marinada pelo “feel-good” que é o ambientalismo e assegurada por uma montagem quase videoclipesca, se é que o termo existe. Todo o discurso que se lhe segue sofre de uma linguagem obscurecida pela ignorância de a quem se destina, limitada por um jogo de imagens que correm cegas à procura de alguma razão de ser. É um filme sobre o sentimentalismo que Cameron nutre pelo discurso hippie, da violência e corporativismo como domínio humano e da paz e aceitação como território tribal? É um filme-ironia que ostenta tecnologia para bater o pé no chão e informar que a tecnologia é má? Nada disto encontra eco, análise, referência. É pura filosofia de algibeira e desfile de caricaturas: a acção militarizada que ainda se cola na doutrina Bush de uma “guerra contra o terror”, um cão raivoso de um general que insiste na violência como prova da sua própria existência, um vermezito assalariado que ganha consciência ao ver imagens de um povo chacinado, o máquina zero desalinhado dos seus pares que descobre nos aborígenes algo melhor do que bater continência aos camaradas imperialistas.

Comparar Avatar a um western é possível mas seria ingrato para o género. Sim, ocorre-nos “Danças com Lobos” mas apenas porque é, talvez injustamente, aquele que mais próximo chega ao tema, à intenção. Mas é uma intenção pulverizada pela intervenção arbitrária de imagens coladas à postura do entretenimento do 3D, por muito fugaz que seja, e descoladas da cinematografia, que aqui pouco existe. Muito ruído e pouco sinal, alusões descabidas (o mundo humano é feio e cinzento, a natureza encerra todas as cores, oh-meu-deus-as-metáforas) e de pouca consequência (o progresso só funciona se for construído a partir da morte de quem se opõe a ele, o verdadeiro “eu” encontrado na rejeição da tecnologia e aceitação de misticismos insossos), o deboche completo das crenças que visa enaltecer (o precipício moral que é simpatizar com uma tribo mas depois explorar o seu conhecimento limitado e superstições, por exemplo, não parece afectar o soldado paraplégico) e salpicos de acção bombástica (quem iria aguentar 163 minutos de uma mensagem transparente e genérica se não houvesse algo para adormecer os sentidos pelo caminho?). Mão à palmatória, Cameron ainda é o tipo de realizador que não recorre ao plágio – limita-se a citar tudo o que já criou, portanto fica tudo em família.

Por entre a dança das marionetas azuladas, os decalques de um diálogo à “comic book” norte-americano da pior colheita (ocorre-me a Image Comics, “vintage” 1990 e tais a título de exemplo, ou um “Sin City” que subitamente se esquece ser uma paródia cool a um género chunga) e esta noção peculiar de que é preciso ir ao espaço para confrontar a humanidade com ela própria (então e os westerns de Ford? e os experimentalismos do Cronenberg? mas se querem espaço, então e o “Solaris” do Tarkovsky ou, vá, o “Event Horizon” do W. S. Anderson?) transfiguram Avatar num carnaval de enganos. Oh sim, o “simbolismo”, a “crítica à sociedade”. Isso também a geração MTV que tanto lambia os dedinhos do canal que os promovia e depois mordia a mão toda quando cheiravam o sucesso para além da televisão e desses, quantos foram reconhecidos pela mordacidade da iniciativa? Quanto muito são agora T-shirts do mês.

Cameron não tem problemas em detalhar a sua imaginação mesmo quando esta não é particularmente imaginativa – coisas mais inventivas ou igualmente impressionantes no uso dos gráficos de computador já surgiram nesta década, não apenas no cinema como também, talvez numa comparação não muito descabida, nos videojogos – e de imprimir a sua presença nos planos mais fortes do filme, mas as suas histórias sempre assentaram no mais pobre convencionalismo emocional e numa natureza humana reduzida a um código binário sem espaço para a nuance. E a teia de relações, a queda e redenção do máquina zero, a emancipação através da guerra e do abandono da mesma, a tecnologia que condena e que salva: tudo perversamente manipulado por fetiches tecnológicos que condenam a irrequietude das imagens a um “sempre a abrir” sem propósito, os diálogos ao vazio emocional, o mistério de Pandora a uma caixa já aberta muito antes do espectador sequer lhe poder tocar. Aqui, talvez mais do que nos seus filmes anteriores, Cameron quer mostrar o que fez mas não quis convidar à partilha dessa criação. E isso é não perceber o cinema.

Apesar de existirem coisas para admirar em Avatar, o filme nunca é uma delas.

8 Responses to Um skowng e o seu thanatos

  1. Haha, excelente :lol: cheguei a ver dessas dobragens por cá, eram delirantes :D

  2. ahah excelente ideia! tenho de falar com o alarka pa me fazer um banner em 3D XD

    No mais, não há nada melhor para acabar uma discussão sobre filmes do que irmos todos para o sofá ver esse clássico dos clássicos, Cobra, dobrado em brasileiro pela RBRichards!||

    http://www.youtube.com/watch?v=P4gIVcu3NV0

    Depois disto, nada será como dantes! eheh

  3. Abul,

    Vai ver. Se tudo correr bem no final da sessão ficas com os óculos e depois fazes um especial 3D Rumblepack :lol: Regra geral não tenho expectativas – confirmo a total ausência delas quanto ao Avatar – por isso não me senti defraudado. Entediado é outra coisa mas também, bem sei que os meus gostos e opiniões não são para todos (até sou bem capaz de falar bem dos dois primeiros filmes Terminator).

  4. André,

    Até recomendo que se veja o filme – quanto muito, desafia a perguntar sobre o potencial do 2D e do 3D. A impressão com que fiquei do filme, além do que já leste, é que é análogo a um videojogo que usa tecnologia de ponta e que é aplaudido por isso, mas cujo resultado enquanto videojogo é francamente simplório.

  5. Caro Nuno F,

    Uma voz dissonante num coro de aceitação pouco fará pela morte do cinema ou do filme em questão. Certamente não em termos de receitas (cuja culpa cai na indústria que não se soube sustentar) ou de sucessos de bilheteira (o qual nem por um minuto duvido que Avatar será).

    É garantido que ao não ser realizador não percebo peva de cinema mas proponho o seguinte. O filme sempre foi um engano visual – ou não fosse baseadoo na persistência de visão humana, a qual retém a imagem residual durante uma fracção de segundo e portanto, ilude o espectador quanto à continuidade da imagem. A tecnologia 3D, tanto a de então como a de agora, é apenas um engano construído sobre um outro. Bonito de ser ver talvez, mas não menos enganoso. A questão é, se a sensação de que estamos a ser “enganados” não é de menosprezar (ou seja, colocando de parte as virtudes e falhas do sistema, é interessante pelo menos a pergunta que o espectador se colocará a ele mesmo entre o potencial do 2D e do 3D), é um engano que é absolutamente necessário para um meio visual como este? O engano “novo” está assente no mesmo pressuposto que o engano “antigo”. Engano por engano porque não explorar até ao máximo aquele que já deu provas de nos conseguir enganar durante anos e anos?

    Como disse no texto é uma ferramenta que compete a quem a utiliza mostrar o que vale, e também como disse no texto, pouco ali me converteu ao “futuro” (que não é tão novo quanto isso) ou à sua necessidade. Não que seja preciso impor a questão da necessidade à decisão criativa de um realizador mas quando é ele a impor essa necessidade no público, acho estar no pleno direito de a questionar. Se o 3D não me ofereceu nada face à versão 2D não vejo porque não posso perguntar “porquê” em vez de me remeter à complacência.

    Por entre o espalhafato tecnológico há momentos pontuais de curiosidade mas o problema que vi no 3D foi o de um engano que quanto mais tempo passava, menos oferecia aos meus olhos e logo na primeira hora já me tinha acostumado ao que estava a ver. Parece-me esse o problema fundamental que também afectará a frustração do mágico que revela os seus truques à audiência – o cinema resultou porque não disse a ninguém como nos enganava; Cameron oferece um par de óculos e logo aí, percebemos o que vai acontecer.

    Além disso, convém lembrar que temos em mãos um projecto na ordem dos 250 milhões de dólares, cimentado ele próprio na criação de tecnologia periférica (incluíndo os famigerados óculos 3D), de publicidade em torno dessa mesma tecnologia e licenciamentos afins… De certeza que são os cinéfilos que estão a matar o cinema e não este tipo de projecto?

    Quanto a oferecer algo refrescante aos espectadores, recomendo esta leitura:

    http://www.zkm.de/futurecinema/index_e.html

    Mais precisamente, o parágrafo que menciona Raul Ruiz elucida sobre algumas teorias que visam aproveitar o espaço do cinema de outras maneiras, como esta:

    “And perhaps the consummate venture is the notion of a digitally extended cinema that is actually inhabited by its audience who then becomes agents of and protagonists in its narrative development”

    O digital enquanto meio para facilitar uma convergência entre o teatro e o cinema? Parece-me infinitamente mais refrescante do que o 3D :)

    E para finalizar, se o “F” no teu nome significar o que penso, é uma conversa que já tínhamos até dado início num certo almoço e que podemos ter noutra ocasião. Sabes que opiniões são mesmo só isso ;)

  6. NUNO F says:

    “E isso é não perceber o cinema.”?
    Nunca um final de texto se aplicou tanto ao seu autor…
    Adoro as tuas escrituras, nas no que aqui foi dito, era capaz de gerar discussão com tantos ou mais caracteres dos que aqui foram gastos eheh.

    No entanto, com alguns dos julgamentos que fazes, espero seriamente que tenhas visto igualmente a versão “2D” do filme.

    Alguém dizia algo giro faz uns tempos: “os cinéfilos estão a matar o cinema”. E com ideias dessas, é o que realmente dás a entender.

    Eu não me senti defraudado, pois as minhas expectativas foram correspondias, no entanto, queria mais, claro. Mais ousadia (narrativa). Mas pensa assim, tendo em conta estes dias, quando foi a última vez que um realizador “lutou” e tentou oferecer algo “novo” e refrescante aos espectadores ;) ?

  7. andrebottles says:

    Fogo e eu que estava todo entusiasmado para ir ver o filme amanhã, já me deixaste receoso com o que aí vem… e vai ser o primeiro filme que vou ver em 3D… =|

  8. “ela não disfarça a limitação temática que sempre pontuou os seus filmes.”

    tão dizendo mal do meu Terminatorzão!! Rage =P

    No mais, sempre disse que aquele personagem azul me arrepiava. Verei no entanto. E o R5 do filme que nunca mais sai.. lol.