2 Ex-Maníaco

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Manic Street Preachers – Journal for Plague Lovers

Qualquer meio de expressão artística tem os seus sofredores, ora trágicos ora teatrais. A distinção nem sempre é útil – conhecer intimamente os demónios e experiências que pautaram um Cohen, por exemplo, nunca demoveria quem se rege pelas linhas de montagem da pop orelhuda construída em torno de fait-divers do sentimentalismo – mas sofrer é ser consciente. Não necessariamente do que se sofre mas do indivíduo em si. Quando os Manic Street Preachers colocaram as rédeas do seu futuro nas mãos de Richey Edwards, o resultado foi mesmo esse. The Holy Bible era um cadavre exquis musical e pessoal – ou não fosse a componente lírica retirada dos diários de Edwards, verdadeira crónica dos horrores do abandono, mutilação e depressão (entre outros) que o pertubavam.

Sem a inteligência de Richey – auto-didacta, culto, incrivelmente lúcido – e a sonoridade com que implacavelmente explorou os seus temas, The Holy Bible podia ter sido uma mera curiosidade na carreira do grupo, mesmo que o seu percurso não tenha sido uma linha recta; de slogans políticos e roupagens glam rock (“You Love Us”, “Little Baby Nothing”) a artesãos pop (“A Design For Life”, “The Everlasting”), os MSP já tentaram de tudo um pouco e não tiveram medo de o fazer (mesmo que os resultados nem sempre fossem os melhores, como o eurodisco simplório de “Miss Europa Disco Dancer” ou algum do choradinho sintético no álbum Lifeblood). Em vez de sucumbir à honestidade brutal da sua introspecção e violência, o álbum triunfou por essa mesma razão.

O mesmo já não se pode dizer de Journal for Plague Lovers.

The Holy Bible era um álbum que só podia ter sido feito por aquela banda, naquele espaço e tempo. Tinha poder e ressonância; mais que isso, tinha contexto. Nunca sobreviveria apenas com a sua componente lírica ou sonora. E por todos os problemas que possam ter feito parte do seu processo criativo, ou de como é inevitável que se cresça para além da sua poesia adolescente e da ingenuidade dos seus slogans políticos, julgo ter sido o álbum mais criativo da banda até à data; ou pelo menos, aquele que melhor incorporou todos as influências musicais e pessoais dos seus membros.

Mas se desde o início os MSP deixaram bem claro que foram criados para desapontar – não esqueçamos o seu objectivo de vender mais que “Appetite for Destruction” dos Guns ‘n’ Roses e depois desaparecer no fogo fátuo da fama, ou como conseguem saltar de arranjos belissímos (“Black Dog on my Shoulder”) para a mediocridade (“Wattsville Blues”) – é o nono álbum de originais, Journal For Plague Lovers, que realmente mostra até onde estavam dispostos a chegar para provar isso. Onde outrora existiu criatividade e vigor, estamos perante um exercício pálido e sem personalidade. O mesmo podia ser dito sobre álbuns anteriores da banda – Send Away the Tigers apenas tinha o estrondoso “Your Love Alone Is Not Enough” para o salvar do tédio – mas até nos piores momentos existia um lampejo criativo, nem que se ficasse pela balada a meio bocejo ou pelo anseio de provar que ainda não é desta que caiem no estigma dos grunhos de classe trabalhadora que não têm nada de jeito para dizer.

Falo deste álbum porque há um grande optimismo em torno de Journal for Plague Lovers. A razão prende-se com o facto de usar letras que Richey deixou para trás, e de Steve Albini ter sido recrutado para trazer algum músculo ao som da banda. Tudo inútil.

O desafio principal, quer seja na comparação com o monstro (elogio) que foi The Holy Bible, quer seja no uso das últimas letras de Edwards, é precisamente o de contexto. É um álbum solipsista – não consegue chegar mais longe do que a sua própria experiência. Se The Holy Bible era Richey de corpo e alma, Journal for Plague Lovers é meio Richey. Sem a sua presença para de algum modo influenciar a construção das músicas, o álbum é um esqueleto bem intencionado mas sem potencial. Steve Albini como produtor não faz mais do que tentar violar o cadáver de In Utero como se este ainda estivesse à temperatura ambiente, e os Manics estão condenados a uma procissão previsível de riffs e melodias fora de prazo e de tempo, com composições cansadas e cansativas que nem a melhor raiva fingida consegue salvar.

Estrutura de letra-refrão-letra-refrão-bridge-slogan final, tudo polvilhado com as habituais citações obscuras ou obscuridades citáveis. É tudo muito limitado em ambição e técnica, e só encontra razão de ser como um tributo dirigido aos fetichistas de Richey numa altura em que todos, incluíndo a banda, já deviam ter ultrapassado essa ausência – e tudo o que de mau e bom ela possa incluir. Os próprios Manics devem ter sentido um peso ser levantado dos seus ombros, com a liberdade para continuar em frente e criar o seu próprio caminho. Voltar ao passado em busca de aceitação ou redenção por parte de fãs e críticos com um serviço fúnebre ou gala de homenagem que só fazem justiça a meio homem em detrimento da sua coesão como banda não podia ter outro resultado. Padece do mesmo problema que boa parte do hip-hop e R&B contemporâneos sofrem, onde a “mensagem” é secundária e deve sempre encaixar na “batida” – sendo que aqui é a expressão da banda que é sufocada pela sessão espírita que tenta canalizar o fantasma do homem que não estava lá.

É a faixa “Doors Closing Down” que resume o álbum de modo mais eloquente do que aqui fiz, com a singela frase – “a gathering of no meaning”. Lamentável exemplo de como desperdiçar talento e abandonar a herança musical que têm vindo a deixar na música.

2 Responses to Ex-Maníaco

  1. Aren’t they all? :Lol:

    E não era que eu estava a falar, ha ha. Estávamos a falar de pseudo-poetring, remember? :P

  2. RLopes says:

    AH! Found it! Finnaly, e mesmo apesar de te teres mostrado relutante em dar o endereço!

    Crap blog, though :P