Dois gamers, dois padrões, duas análises distintas. Podem ler a análise do Jeremias aqui: http://rumblepack.com.pt/xzineportugal/2010/10/31/fable-iii-albion-sera-tua/
Fable III: será que a revolução foi bem sucedida?
Peter Molyneux, director e produtor da série Fable, nunca se poupou nas palavras. Na primeira iteração da série prometeu o melhor RPG alguma vez feito, com uma rede social inédita e um mundo rico para explorar. O produto final não correspondeu às expectativas, mas as suas palavras soaram na imprensa de tal maneira que a série já conta com três títulos e mais de 7 milhões de cópias vendidas.
Nesta terceira iteração, é nos apresentado um título mais leve e apelativo para os jogadores casuais, mas será que a acessibilidade acabou por retirar substância à fórmula?

Como qualquer RPG tradicional, somos logo de início deparados com a escolha do sexo do herói, menino ou menina… e a escolha acaba aqui. O enredo não tem nada de particularmente único: a nossa personagem pertence à família Real, na qual o seu irmão mais velho, Logan, regente do Reino, governa o povo de Albion com pulso firme através da força e opressão.
Logo de início somos confrontados com escolhas, nomeadamente se somos a favor da política do Rei ou contra a exploração do povo. E como se torna regra actualmente, todas as escolhas têm consequências…
Não estamos sozinhos na nossa jornada: temos à nossa disposição Sir. Walter, um velho militar e tutor que nos vai dar a conhecer o reino e as suas necessidades, o mordomo com o nome de Jeeves que estará à nossa disposição no Santuário (uma espécie de menu interactivo, um nexus no qual acedemos ao mapa, inventário e todas as opções relacionadas com o jogo) e finalmente um cão fiel que se mostra útil ao encontrar tesouros e outros itens de interesse.
Na nossa jornada pela posse do reino, Walter dá-nos a conhecer vários líderes e povos que irão fazer parte do nosso exército de intervenção. Todas as revoluções precisam de mão-de-obra.
Além do fio condutor principal temos as quests secundárias, que muitas vezes vos irão forçar a franzir a sobrancelha, tais as situações ridículas que se desenrolam. Isto é típico do humor peculiar do universo de fable, condimentado com diálogos irónicos e caricaturais que dotam o jogo de um enorme carisma.

No entanto, nem tudo são rosas: as quests secundárias são muito reduzidas em número, pelo que podemos espremer no máximo umas 6 a 8 horas a partir das mesmas. A acessibilidade das mecânicas do jogo não ajuda para este efeito, pelo que raramente nos é exigido algo mais que seguirmos um trilho definido, combater uma série de inimigos e acabar com um diálogo contextual. Posso contar pelos dedos as quests que realmente se mostraram como um desafio e me envolveram numa intriga paralela. Não posso deixar de sentir que estas missões foram apenas colocadas como adereços, o que irá desiludir todos aqueles à procura de um universo com mais substância e com algo mais por detrás da camada superficial.
Convém ainda fazer referência à vertente social, na qual podemos estabelecer amizades, paixões ou mesmo matrimónio com qualquer NPC ao nosso alcance. As interacções sociais têm algo em comum com simuladores sociais como é o caso dos Sims.
Comprem edifícios, adquiram património ou arrendem-no a terceiros: tudo isto é possível neste universo.
Mas como tudo neste título, todas as funcionalidades pecam pela sua superficialidade. Os NPCs não conseguem deixar de ser marionetas sem contexto, pelo que a novidade se esgota rapidamente. Ora dançamos indefinidamente com o ferreiro de forma a obter itens mais baratos ou arrotamos descaradamente para obter o riso das crianças.
Nenhum jogo merece ser criticado por apresentar mais variedade, mas também é verdade que estas actividades poderiam ser muito mais do que aquilo que são.
Isso sim é um pecado capital.

Jogabilidade
A jogabilidade assenta na combinação de ataques corpo a corpo e ataques à distância através de feitiços ou armas de fogo. Cada arma evolui consoante as nossas escolhas e o uso que lhe damos, pelo que o sentimento de evolução da personagem está directamente impresso no nosso arsenal.
Não existe nada de complexo no sistema de combate de Fable 3, o que não é de qualquer maneira um ponto negativo: o botão A é responsável pelo combate corpo a corpo, seguido do Y e B para armas de fogo e feitiços respectivamente. O que é de criticar é o desequilíbrio entre os diferentes elementos do combate, uma vez que dei por mim a usar única e exclusivamente os feitiços e combate corpo a corpo, excluindo completamente as armas de fogo devido à sua falta de eficiência. Sente-se efectivamente que as mecânicas não foram bem revistas e equilibradas de forma a recompensar o jogador de todas as formas possíveis, independentemente do seu estilo de jogo. A relação entre a recompensa e a escolha determina a qualidade de qualquer RPG.
Uma das agravantes do sistema de combate é o sistema de menu: simplesmente não existe um menu rápido para a troca de armas e feitiços, pelo que o trabalho de pausar o jogo, carregar o santuário, entrar na sala de armas e circular as diferentes armas e feitiços torna-se monótona e pouco apelativa.
Fable 3 é uma moeda de duas faces, na qual a estética e a funcionalidade estão em constante colisão.
Um ponto a salientar é a dificuldade reduzida do jogo: apesar da palavra de ordem ser a acessibilidade, a verdade é que a facilidade retira qualquer prazer à experiência de jogo.
Numa nota final, convém ainda referir as lacunas na dinâmica do jogo e da narrativa. Na primeira fase do jogo, vamos adquirindo propriedades e evoluindo a personagem com um rol crescente de feitiços e habilidades num mundo livre e por explorar. Na segunda fase do jogo, quando subimos ao trono, a dinâmica do jogo resume-se a várias decisões arbitrárias e encadeadas, tirando-nos toda a liberdade que gozávamos na primeira metade.
As escolhas mostram de facto as dificuldades subjacentes á liderança, mas a narrativa acaba de uma forma tão abrupta que o sentimento de mudança no Reino não se materializa.
Gráficos e som
A nível artístico, Fable 3 tem muito pouco para ser criticado: os ambientes estão bem conseguidos, as personagens apresentam um aspecto estilizado e caricatural que assenta que nem uma luva ao humor peculiar do universo e o trabalho de vozes é simplesmente fenomenal, com várias celebridades a emprestar a sua voz.
A nível técnico, as coisas não se apresentam tão brilhantes: as texturas de baixa resolução são mais comuns do que seria desejado, o aliasing assola o jogo e os modelos pecam pela falta de pormenor. Fable 3 não tem um grafismo medíocre, mas é verdade que não atinge os padrões actuais que se esperam de um título AAA.
Funcionalidades online
No Fable II tinham acesso a um modo cooperativo, mas apenas limitado a convite de um amigo e não tínhamos a possibilidade de transportar a nossa personagem para o jogo de terceiros.
Em Fable III, foram feitas inúmeras melhorias que transformam o modo cooperativo numa grande funcionalidade. Podem agora jogar com a vossa personagem, socializar e estabelecer matrimónio com outros jogadores no Live e trocar itens ou armas de forma a completar o vosso inventário. Existem inúmeras armas por coleccionar, pelo que o estímulo não acabará tão cedo.

Simplesmente não façam gestos obscenos: concluí que, após 3 sessões fechadas, os jogadores no Fable são muito sensíveis.
Comentários finais
Se forem jogadores casuais à procura de um jogo acessível e rico a nível do seu universo, podem contar com umas 12 a 15 horas bem passadas.
Se já estão habituados às nuances dos RPG’s e ao suave tilintar dos menus, poderão ficar desiludidos com a falta de profundidade com Fable III. Sente-se que a transição entre o Fable II e o Fable III foi de facto forçada e desnecessária caso a Lionhead tivesse o cuidado de preservar o legado da série.
No fundo, Fable III acaba por não agradar aos fãs da série e não satisfazer os jogadores casuais por completo. Parece-me um jogo feito para agradar Peter Molyneux e não aos fãs que têm suportado a série.

Nota final: 7.0



