Killzone 3 está aí… Digamos que a expectativa era muita e o hype ainda mais. Já tiveram todos oportunidade de ver o que vos espera em Helghan. Os nossos parceiros do portal WASD publicaram uma review que demonstra bem o que o jogo representa para os mais ávidos fãs.

Mas o que me leva a escrever hoje é uma certa dose de receio que tenho pela imagem que as personagens Helghast demonstram, já em jogos passados era assim, que denotam uma clara mescla de representação de tudo o que é tipicamente “mau” no lado inimigo nas guerras modernas. Quem é que pode dizer que o Autarch Stahl não vos parece um estereótipo Nazi? Já agora, todo o concelho Helghan… Toda a política de propaganda que chega a roçar um Estalinismo, com traços Nazis, até mesmo as fardas onde não faltam umas pequenas marcas nos colarinhos a fazer lembrar as SS. Também a imagem dos líderes e a forma como pensam, não vos lembra nada?

É! Não bastam os Call of Duty a combater mesmo Nazis, Soviéticos e Vietcong literalmente, em que no Online até jogamos do lado deles, não bastam as imensas referências históricas em diversos jogos, a já famosa “saga” de xenofobia latente em Resident Evil 5 em que os afectados são todo africanos a serem chacinados por um… caucasiano… São muitas as patacoadas que vemos por aí, exacerbadas por vezes. Já nem todos se lembram da célebre adulteração do ideal neo-Nazi em Command & Conquer ou Soviético em Red Alert. Mas eles estavam lá.

Agora, pegam-se em estereótipos vulgarizados pela distância do tempo e até jogamos no Call of Duty no meio do Muro de Berlim. Está-se a banalizar a mensagem destruidora, xenófoba e separatista do ideal Nazi e Soviético, criando-se imagens de “menos mau” e até dando uma ideia de pacifismo, por vezes. Fico triste pela memória curta da sociedade.

Tudo bem, poderão dizer que combatemos estes males nos jogos. Que até saímos vitoriosos na maioria dos casos, ou pelo menos a mensagem é ridicularizada pelo estereótipo do Americanismo testicular, em que os Rambos todos matam sempre os maus. Mas será mesmo assim? E no entretanto? Não estão os putos de 9 anos a jogar Killzone 3 e outros jogos do género a serem expostos a uma imagem menos positiva do nosso passado recente. A propaganda e a imagem da ISA, dos Marines, das Black Ops que são tão mauzões que até matam Nazis e Russos, mais ou menos camuflados numa modernidade e distância temporal aparente, será suficiente para educar estes miúdos e menos miúdos a rejeitarem esses  ideais? E será a mensagem diminuidora do “eterno inimigo derrotado” uma forma de cometerem o erro de minimizar as ameaças do passado recente?

Já estou a ver os comentários a isto. “Isso é responsabilidade dos pais!” ou “Já sou crescidinho para não me deixar influenciar!” Será mesmo assim? Sabiam que um estudo provou factualmente que uma pessoa de media idade hoje em dia é mais insensível à violência somente pela quantidade de reportagens reais que vê na televisão? Já para não falar em filmes violentos e jogos, claro. A eterna batalha dos jogos violentos criarem ou não pessoas violentas. Eu acho que não, mas influência bastante as pessoas e pior que isso, torna-se insensíveis e minimiza os problemas mais extremistas como os que já mencionei do passado recente. Isto aliado à falta de informação e clara diminuição na abordagem histórica nas escolas ao problema que foi o flagelo Nazi e Soviético, e podemos já ver um enorme perigo, mesmo que camuflado, que jogos como os que já mencionei podem provocar.

Não tenhamos nós memória curta. O Nazismo, o Comunismo Extremista e tantas outras formas de pensamento político mais ortodoxo trouxeram morte, miséria e desespero para meio mundo no seu tempo. Ir buscar influências a isso em coisas recentes é uma ofensa a quem sofre, acordando pensamentos e filosofias vergonhosas.

 

  1. sidsidsid diz:

    Fiz a primeira missão deste KILZZONE3, e obviamente o tema do NAZISMO tem que vir a lume, pois mais chapado é impossível: todo o universo gráfico, visual está lá. O grande império, a arquitectura, a grandeza militar em revista, os looks indumentários e até corporais, o discurso de exterminação, enfim, a bandeira nazi reformulada… está lá tudo.

    Assim, foi fácil recorrerem ao “atalho” do nazismo para “encher” o jogo, fácil e… triste. Tanto que poderia ser feito para ilustrar/demonstrar o mundo Helghan, para lá dos clichês humanos e reais, e ficaram-se pelas reminiscências a uma ideologia podre bárbara e anti-humana.

    Sim é um jogo, sim vivi a violência dos jogos durante a minha vida e não fez de mim mais ou menos violento, mas, há que pensar nos mais fracos e influenciáveis com tendência a engrossar as têmporas com merda alheia e gratuíta. Há que repensar a enunciação às bases do genocício/descriminação/propaganda. Até pode ser intencional – de forma – que empurre à reflexão dos próprios gamers sobre a nossa própria história e acontecimentos fascistas que mudaram o mundo, pode ser, mas o facilitismo está lá, num mundo Helghan proveniente de humanos escravizados num planeta distante, colonos mineiros, explorados… Podiam ter feito muito mais, para dar a volta, e assim, temos todo um povo fictício, emaranhado com o nazismo ao barulho.

    Para lá disso:

    Não gosto de singleplayers, pelo pressing e repetição do script da história, e fazer save e load a cada 10 metros de jogo, é uma ofensa ao meu QI. Este KZ em SP, é mais do mesmo: para arranca, mata x, mata y, para, arranca, para arranca…

  2. Jeremias25 diz:

    Neste tipo de coisas só posso falar por mim, e na influência que os jogos tiveram ou têm em mim. Por isso vou recordar algo que me mudou não só como gamer, mas também como pessoa.

    Estou a falar de Wolfenstein 3-D.

    Aquilo era algo que eu nunca tinha visto antes. Um shooter in your face que oferecia uma perspectiva completamente nova ao modo de jogar. Fiquei abismado. A noção de profundidade (3D) dos labirínticos caminhos que percorríamos dentro do Castelo Wolfenstein deixaram-me tonto ao princípio, mas sei que durante um bom período eu simplesmente não jogava outra coisa lá em casa no meu velhinho 386.

    Não vou fazer uma análise ao jogo, até porque muitos pormenores já me escapam (já passaram cerca de 18 anos), mas deixo aqui a ideia de que este jogo foi de tal forma marcante para mim, que desde então para cá tenho sido um fã incondicional de FPS’s!

    Mas, para além do lado lúdico do jogo, arrisco-me a dizer que Wolfenstein 3-D foi, no inicio da minha adolescência, um jogo pedagógico. Estranho, não é? Como é que um jogo considerado na altura violento e até censurado em alguns paises, possa ter um cariz pedagógico para alguém. Mas a verdade é que depois de derrotar o Führer, e em conversa com os meus pais, questionei sobre aquela personagem com bigode à Charlot… e então tudo começou. A partir dessa altura comecei a procurar e a estar atento a tudo o que era informação sobre a 2ª Guerra Mundial: documentários, filmes, reportagens, artigos, livros, enciclopédias e jogos, claro.

    Já sei, sou maluquinho. Mas a verdade é que um simples jogo despoletou em mim a curiosidade e tomada de consciência para algo, que vim a perceber com o tempo e com a busca de mais informação. Neste caso, o jogo e as referências Nazis tiveram uma boa influência em mim, mas poderia muito bem ter funcionado ao contrário, admito isso.

    Talvez seja importante, no papel de Pais, supervisionar o que os nossos filhos jogam. A questão não passa por deixar jogar ou não um jogo violento. Até porque o fruto proibido é o mais apetecido, acho que passa por um acompanhamento do que ele joga e com a preocupação de que ele entenda o que trata o jogo, a ética que está em cada acção, fazê-lo distanciar-se o suficiente para perceber que não se trata de algo mais que um jogo e que a sua transposição para a realidade não deverá ser feita. Não é um trabalho fácil, mas acho que é por aí o caminho.