Deixem-me confessar-vos desde já algo: a única consola da geração actual que possuo é a Wii. Não por ser um triste fanboy Nintendo (embora isso não esteja muito longe da verdade), mas porque sou um homem casado e com um filho, e na minha casa só há dinheiro, espaço e tempo para uma consola.
Mas há um PC. Embora não tenha por costume utilizá-lo para jogos, gosto de pensar que está razoavelmente bem equipado para isso.
Muitas linhas se têm escrito sobre a nova menina dos olhos dos jogadores hardcore, um jogo que gerou ondas enormes de antecipação entre o público e cujas vendas têm estado à altura de toda a hype que foi gerada em volta dele. E foi justamente graças à Hype, a revista, que tive oportunidade de experimentar um pouco desse jogo. Na falta de uma Xbox 360, a demo contida no DVD anexo ao primeiro número da Hype permitiu-me apreender um pouco da experiência que é Bioshock.
Raios partam. Nunca devia ter pegado no raio da demo. Por mais que um motivo.
Para aqueles que já estão fartos de ler isto e só querem saber o raio da nota que eu dou ao jogo, aqui vai. Para a demo de Bioshock no meu PC, dou a fabulosa nota de 3/10. Contentes? Os que não gostam de ler, podem sair da sala agora. Fechem a porta. Para os restantes, a nota que dei deverá ser suficiente para suscitar interessante no restante desta “análise”.
Quando arranquei a demo no meu PC, e cliquei no botão “Start Game”, a primeira coisa que pensei foi: “Belo slideshow. Mas quando é que vem o jogo?”
Depois, subitamente, o horror foi-se formando na minha mente à medida que a terrível verdade vinha ao de cima: “Isto é o jogo!”
Após, com alguma dificuldade, conseguir aceder ao menu de opções visuais, comecei desesperadamente a mexer em todas as regulações de forma a obter, pelo menos, um frame rate com mais de um dígito. Acabei por chegar à conclusão que só tinha duas opções:
- Baixar as opções de detalhe de forma brutal, retirando todos os efeitos que concedem espectacularidade e ambiente ao jogo, e fazendo-o parecer com um FPS de há 5 anos atrás. Não, obrigado: para isso, tenho aqui o Deus Ex na minha prateleira, e esse, pelo menos, posso jogá-lo tal como quem o programou pretendia.
- Baixo a resolução para os 640×480 e jogo o jogo numa resolução semelhante à da Wii – concerteza algo que não estava na mente de quem fez o jogo, senão este teria aparecido na consola da Nintendo.
Enfim, como possuidor da Wii, já estou habituado a desilusões gráficas, por isso bem podia escolher a opção 2 para, pelo menos, conseguir vislumbrar aquilo que, supostamente, faz de Bioshock um título tão excepcional do ponto de vista de apresentação. Havia de conseguir ver aqueles efeitos especiais, nem que fosse através do filtro “mosaico” do Photoshop.


Em cima: Bioshock como era suposto ser visto. Em baixo: Bioshock no meu PC. Whooo!
Após esta operação radical, finalmente consegui correr o jogo com um frame rate por volta dos 15. Infelizmente, isto não é um qualquer jogo de estratégia, mas sim um raio de um FPS que exige reflexos de relâmpago e um elevado grau de fluidez para conseguir fazer alguma coisa de jeito. Se eu fosse um dos meus inimigos do jogo e visse o herói vir contra mim nestas condições, concerteza que pensaria que ele era um epiléptico retardado mental, a apontar a arma para os candeeiros, a saltar para dentro de lagos venenosos e, de vez em quando, a alvejar o chão com fúria assassina. Isso para não falar que, sempre que mais que um personagem ocupava o ecrã ao mesmo tempo, o frame rate sofria novamente uma queda abrupta para níveis inenarráveis, para minha intensa frustração.

A tecnologia dos instrumentos do dentista evoluiu imenso nos últimos anos…
Mas enfim, até me consegui divertir, mais ou menos da mesma forma que um masoquista se diverte com ferros em brasa aplicados nos mamilos. E depois, acabou-se. Com um palavrão tão vil que nem neste site o posso reproduzir, a noção de que estava apenas a jogar uma demo atingiu-me na face com a gentileza de uma marreta com espigões envenenados. Raios partam os gajos, logo agora que estava a ficar bom.

… mas ainda não o suficiente para evitar certos “acidentes”.
Em suma: o jogo até pode ser viciante (e é), e ter uma premissa e história extraordinariamente interessantes e bem exploradas (e tem), e possuir uma mecânica incrivelmente bem implementada (também possui), mas não corre como deve ser no meu PC. Como o meu PC não é uma merda (tudo o resto corre muito bem), então só posso chegar a uma conclusão: a demo de Bioshock no meu PC é uma merda. Não me posso pronunciar acerca do jogo completo, mas os prospectos não são animadores.
Com tudo isto, não consigo evitar pensar: mas o que raio se passa na cabeça dos programadores de jogos? Cada vez mais vemos jogos PC feitos para PC’s que não existem! E do lado do hardware, a coisa não é muito melhor: o grau de evolução dos GPU’s é tão elevado que uma pessoa arrisca-se a comprar uma placa de vídeo de alto de gama numa loja, e ela já estará obsoleta quando chegar a casa. O panorama dos jogos de vídeo no PC tem tendência a restringir-se a um grupo restrito de ricalhaços sem vida, que não se importam de gastar várias centenas de euros todos os meses por aumentos de desempenho na ordem das fracções percentuais, e cuja noção de “divertimento” é tentar ver qual a maior frequência de relógio que conseguem impingir a um GPU antes de o fritar. Vamos bem, vamos. Minhas queridas consolas: pelo menos, só me assaltam a carteira de 5 em 5 anos.
A única forma de me divertir jogando no PC é jogando a jogos feitos há 3 ou mais anos. Isso não é saudável para a indústria, qualquer idiota poderá concordar. Eu estou-me lixando: é saudável para a minha carteira.
E agora que acabei com a parte séria deste post, aqui vai uma imagem de um pato:

Patos rulam.
Por: Myke Greywolf