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Art Academy: uma aventura no Museu Colecção Berardo
Por: | 25 de Novembro de 2010 às 10:02 | 10 Comentários

Se o objectivo da imprensa é providenciar um olhar crítico sobre determinado evento ou produto, sois todos vítimas de um engodo macabro onde os sites noticiosos portugueses, num ímpeto carnavalesco, se mascararam de gira-discos.

Não descorando da forte utilidade de um gira-discos munido de gravador de cassetes, ajusto a gravata vermelha para vos relatar a verdade dos faCtos sobre o seguinte evento nintendista:

Local: CCB – Museu Colecção Berardo
Objectivo: Apresentação do jogo da aplicação Art Academy da Nintendo.
Cobertura jornalística imparcial do Rumble Pack: Vanessa Nobre e Melanie Romão, duas ilustradoras que foram do blog do cascalho durante algumas horas.

Rumble Pack @ Apresentação Nintendo Art Academy

MUE DUES, um altar NDS!

Ceci n’est pas un jeu!

– “Ceci n’est pas un jeu!” — exclama Magritte. E o fantasma de Magritte exclama bem porque, ao contrário dos que se atiraram famigerados ao coffee break, certamente ouviu Nelson Calvinho explicitar que Art Academy não é um jogo mas sim «um curso interactivo de pintura». Os restantes… bem, entre a comida de um lado e a disponibilização livre da Nintendo DS do outro, não sobrava muita gente com pachorra para ouvir o que aquele senhor ali assim tinha para dizer. E está certo, afinal de contas o convite era para uma apresentação, não era para trabalhar.

– Perguntas?arriscou Nelson Calvinho. Silêncio. Os olhares mal se desviaram dos ecrãs de 4,2 polegadas da NDS XL. O responsável pelas relações públicas da Nintendo em Portugal mencionou então a presença dos coordenadores dos futuros workshops artísticos a realizar em 2011 no museu, com recurso à NDS e ao jogo à aplicação Art Academy.
– Podem colocar-lhes as vossas perguntas! — insistiu Calvinho com um olhar de quem não vai morder. O silêncio constrangedor intensificou-se. O que vale é que a partir de uma certa idade, já instalados na profissão, deixamos de levar faltas por não fazer o trabalho de casa.

Não culpo apenas a imprensa, a apresentação teria beneficiado de alguma contenção na disponibilização das NDS. Primeiro elucidai-os, depois deixai-os pôr as mãos na massa, que o cimento não se faz sem bom conhecimento de causa.

“Inventámos o computador”. Primeira pergunta: quando é que o papel vai desaparecer?

Seguiu-se uma pequena demonstração do produto em tudo similar à propaganda oficial: tomai um quadro famoso, aceitai os palpites do vosso tutor virtual e contemplai a vossa obra, qual fénix renascida, uma cópia simpática e impressionista do quadro escolhido. Os jornalistas, plenamente elucidados — certamente teriam perguntas se assim não fosse! –, procederam aos arranjos do espaço para sessões fotográficas e entrevistas rotineiras, cujo eco aparentava o seguimento de um guião comum: Irá este sistema substituir os media tradicionais?; Almeja-se instruir artisticamente toda a família?; Quem não sabe desenhar ou pintar, pode comprar o Art Academy e por auto-magia evoluir para o estatuto de mestre-pinta?.

TPC para a imprensa: Quais são os objectivos do Art Academy?
Solução: Instruir o aluno acerca dos principais conceitos de composição, cor, conjugação de materiais e técnicas generalistas de pintura.
Pertinência das perguntas colocadas: 0/20.

Mãos na Coisa


Por muito que aprecie as boas intenções nintendistas de aumentar o leque da capacidade humana nas mais diversas áreas por meio do entretenimento, a propaganda é enganosa: «All of the skills learned in Art Academy can be applied to real-life artist’s materials outside of the Nintendo DS environment».

Esta falácia conduziu o evento e consequentes entrevistas no sentido da comparação com a aprendizagem académica das artes e as ressalvas face à introdução das novas tecnologias na arte contemporânea. Perdoem-me a mim e à Melanie Romão, pois não ilustramos com o patrocínio de instituições académicas de renome artístico, mas a nossa paixão pelos recursos artísticos actuais impele-nos a questionar: então e as artes digitais? O que é feito da era das pen tablets da Wacom? Do Adobe Photoshop? Do Corel Painter? Da CGSociety? Da Computer Arts? Da Digital Artist? Certamente há internet no CCB — em que século ficaram as questões colocadas?

Há falta de visão na própria publicidade do produto. O potencial de Art Academy seria muito maior se abraçassem a sua pertinência na aprendizagem artística tendo por recurso precisamente as ferramentas digitais. Os alunos mais jovens certamente beneficiariam da experiência com a stylus da NDS antes de suplicarem aos pais por uma Cintiq da Wacom.

Comparativamente aos media tradicionais, Art Academy falha clamorosamente nos seguintes aspectos: o lápis não pode ser utilizado depois de iniciada a pintura; as cores não se fundem quando sobrepostas na tela, nem mesmo quando diluídas em água;  a utilização de um pincel molhado sobre a tinta não a dilui, não remove intensidade de cor nem estende a sua superfície.

Comparativamente aos media digitais, Art Academy comporta alguns erros preocupantes: o contacto da caneta digital com a superfície do ecrã táctil em simultâneo com outro contacto gera um traço de um ponto ao outro; a simulação de pressão é mínima; a orientação da ponta da stylus não afecta a orientação do traço; acima de tudo, uma falha i-na-cre-di-tá-vel numa aplicação informática: não tem Undo. É isso mesmo: enganaste-te? Camarada, o choro é livre!

Hands On Nintendo Art Academy

Mãos na coisa = risco de lado a lado!

Ou seja?

Se o objectivo se mantiver na mimese dos media tradicionais, o produto é pouco mais do que um engodo divertido — as adversidades dos materiais reais, os seus comportamentos físicos e as características dos diferentes suportes (textura, rugosidade, atrito) estarão eternamente em falta e farão com que as aprendizagens do curso se resumam a ensinamentos teóricos facilmente consultáveis em manuais.

Se a Nintendo e os fruidores deste curso atentarem ao seu potencial enquanto dinamizador do desenvolvimento artístico de jovens da era digital, então temos em mãos uma aplicação promissora e uma perfeita stepping stone para os demais interessados em desvendar os benefícios das superfícies tácteis e aplicações interactivas ao serviço da criação artística.

À esquerda: Melanie Romão vs NDS / À direita: Vanessa Nobre vs NDS

À esquerda: Melanie Romão vs NDS
À direita: Vanessa Nobre vs NDS

Resumo

3/5, ou 5/5 se forem nintendistas.



10 Comentários no “Art Academy: uma aventura no Museu Colecção Berardo”

  1. ncalvin diz:

    ena, temos crítica de fino recorte, com name dropping e tudo :-) é pena a nouvelle vague rumblepackiana ter feito parte dos raros meios presentes a não colocar qualquer pergunta após a apresentação, se calhar por timidez constrangedora. tinha sido uma boa oportunidade para colocar algumas questões do século XXI. ;-P

  2. setzer diz:

    Bom trabalho! xD
    Já agora, belos desenhos que fizeram nas NDS. ;)

  3. Sabão diz:

    Eu ainda nem consigo perceber como é que se enviam convites aos sites de sátira. Depois escrevem reviews deste calibre com grande pormenor “artistique” (btw jogo em francês é masculino como em português) enquanto que outros criticam reviews enciclopédicas de jogos de Rally.
    Relativamente ao jogo posso dizer que a coisa é sensivelmente melhor do que o Mario Paint portanto já é um progresso.
    Tentar comparar uma ferramenta profissional com um jogo lúdico é como comparar guitar hero com uma verdadeira guitarra ou DDR com dança de salão: estúpido.

  4. ElPatron diz:

    Sabão escreveu:

    Tentar comparar uma ferramenta profissional com um jogo lúdico é como comparar guitar hero com uma verdadeira guitarra ou DDR com dança de salão: estúpido.

    Mas de facto, a Nintendo é que está a dizer que se pode “aprender” com aquilo.

  5. @ncalvin
    O horário do evento é que foi um bocado mal escolhido.

    O texto está giro, no entanto, o objectivo da Nintendo com este jogo não é formar artistas, é VENDER.

    Quem é que compraria um Art Academy direccionado para as artes digitais sabendo que o computador lá de casa tem o Paint que faz mais ou menos a mesma coisa? O brilho deste “jogo” está mesmo na simulação das técnicas clássicas, ainda que iluda o utilizador com algumas facilidades não existentes na realidade.

    Mais uma coisa: queriam multi touch, pressão e detecção de inclinação da caneta? Para isso teriam que pagar o dobro pela consola.

    Uma coisa é certa e inegável: o “jogo” proporciona resultados finais muito bons e, tal como guitar hero faz com a música, é um enorme incentivo para passar do ecrã para o papel.

  6. BigLord diz:

    @ Tony_tha_Mastha:
    Talvez tenhas razão na questão de multi-touch e etc, mas não tem undo? A sério? Há um programa homebrew para a NDS que faz isto e muito mais…

  7. Alarka diz:

    Comparar DS a Wacoms? Really?

  8. vnobre diz:

    ncalvin escreveu:

    é pena a nouvelle vague rumblepackiana ter feito parte dos raros meios presentes a não colocar qualquer pergunta após a apresentação

    Tinha de estar preparada para este apontamento e resta-me “dar a mão à palmatória”! Não fomos com a sensação de sermos “imprensa”, nem “reporteres”. Aceitámos um convite, fomos fruir e relatar, mas sem dúvida pensei mais tarde que devia ter agido em prole destas minhas considerações em vez de deixar isso apenas para a crítica posterior.

    Sabão escreveu:

    Tentar comparar uma ferramenta profissional com um jogo lúdico é como comparar guitar hero com uma verdadeira guitarra ou DDR com dança de salão: estúpido.

    Concordo, mas não comparo o Art Academy a uma ferramenta profissional de pintura. Primeiramente, eles não o assumem como jogo lúdico mas sim como software. Para software, falha no objectivo: não se aprende quase nada de útil para trabalhar devidamente com materiais tradicionais.Por isso arrisco: porque não tentar ensinar a trabalhar melhor com meios digitais, à semelhança de algumas ferramentas já existentes? Não digo um Adobe Photoshop, digo… um OpenCanvas v.1! (obrigada pela correcção do francês, devidamente editado!)

    Alarka escreveu:

    Comparar DS a Wacoms? Really?

    Não é comparar nem almejar que tenha as mesmas especificações, mas pedia um acréscimo de capacidade, sim. O Art Academy serve muito pouco no que diz respeito ao uso de materiais como pincel, lápis, etc – todos eles têm os comportamentos que a wacom tenta mimicar com as suas especificações. A minha primeira tablet era rasca, de plástico, com uma pilha dentro da própria caneta – mas um leve reconhecimento de alguns niveis de pressão e de orientação é suficiente para ajudar ao desenvolvimento artístico inicial.

    Apenas gostava que a caneta da DS fosse um bocadinho mais fidedigna e não gerasse um risco de lado a lado do ecrã a cada leve toque do dedo mindinho sobre a superfície.

  9. Rui Peralta diz:

    Também fiquei desiludido com o jogo. Se não há reconhecimento de qualquer nível de pressão nem de posição da caneta, não consigo percebo a afirmação da nintendo em que o aprendido aplica-se à vida real se nem se fica a saber o básico sobre desenhar, pressão e inclinação.

    Passada a desilusão entre o que temos nas mãos e o que nos dizem o que é art academy, é um jogo porreiro para passar o tempo.

  10. Rui Peralta diz:

    PS: sim, é irritante não ter undo e qualquer dedo que toca no ecrã temos o desenho estragado. Se a nintendo tivesse a fazer uma aplicação como gosta de dizer e não um jogo (como realmente fez) isto seria algo impossível de acontecer. Acho eu…

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